Rasgando Dinheiro

Completei três anos de UFPR em outubro de 2012. Nos últimos dois anos coordenei o programa de pós-gradução (mestrado e doutorado) do meu departamento. Uma carga de trabalho chata, mas necessária. Uma das atribuições do coordenador é gerenciar um pequeno orçamento que possibilita comprar passagens aéreas para participação de alunos em conferências, participação de membros externos em bancas de defesas, etc.. Tentei fazer uso dos recursos da melhor maneira, mas a UFPR torna tudo muitíssimo complicado. Veja dois exemplos corriqueiros.

O que você faz quando vai comprar uma passagem aérea? Bem, eu planejo com antecedência, procuro o melhor preço e faço a compra. Na universidade tentei fazer o mesmo, só que não posso fazer a compra. A universidade deve comprar com a agência licitada.  Apesar dos meus três anos na UFPR eu ainda não consegui entender como as coisas funcionam, mas percebi que pagamos o dobro por qualquer passagem área. Eu fiz um levantamento no ano de 2012 e pagamos mais do que duas vezes o preço da cotação inicial da passagem. O cúmulo foi quando compraram uma passagem para Londres por mais de R$ 8000, em classe econômica. Como é que você explica? Não explica. Rasga-se dinheiro sem dó. Reclamei com o pro-reitor e também com reitor da universidade. Mas tudo continua igual e não vejo perspectivas de mudanças. A explicação que eu mais ouvi é que essa burocracia é necessária para evitar a corrupção. É isso mesmo, joga-se um monte de dinheiro na privada para evitar que alguém roube.

Aqui vai um outro exemplo. A Fundação Araucária, o orgão de fomento a pesquisa do governo Paranaense, tem chamadas de projetos de pesquisa. O pesquisador escreve um projeto e se a Fundação achar sua pesquisa relevante você leva o recurso. Só que por algum motivo, a fundação Paranaense, diferentemente do CNPq, por exemplo, não repassa o recurso para o pesquisador e sim para a universidade. E aí o recurso que o pesquisador conseguiu as duras penas é gerido de forma muito estranha pela universidade.

Veja o que aconteceu comigo recentemente. Fiz uma previsão de recursos do projeto para comprar livros. Um dos livros que preciso comprar é esse da imagem abaixo. Custa US$ 99 (na Amazon.com), ou seja, cerca de 200 reais. Quem já comprou livros na Amazon, sabe como é tranquilo e seguro comprar com eles.

Só que eu não posso comprar, pois o dinheiro está na conta da universidade. Quem compra é a biblioteca da universidade. Entrei em contato com a biblioteca para ver qual era o procedimento e lá veio a bomba. Além de um monte de formulários para preencher, a moça me disse que é necessário pagar uma taxa de importação de US$ 165. Mas não tem imposto sobre livros, argumentei.  Aí escutei a seguinte explicação: “Se quiser comprar, tem que pagar a taxa. Não podemos comprar da Amazon. Temos que comprar com um importador.” Ou seja, ao invés de pagar 99, o mesmo livro custará 264 dólares. Na realidade deve ser mais caro que isso, pois o preço do “importador” certamente é mais alto do que o da Amazon.

A Fundação Araucária diz que não pode repassar dinheiro para pessoa física, como faz o CNPq, pois o tribunal de contas do nosso “avançado” estado não deixa. Então continuamos rasgando dinheiro.

Como eu disse anteriormente, esses são exemplos de coisas que acontecem com frequência no meu departamento na UFPR. Imagine quando você vai para outras esferas e altos escalões. Lá eles deve ter máquinas de picar dinheiro para vencer o volume.

É uma pena constatar que todo esse dinheiro, que poderia estar sendo melhor aplicado nas nossas universidades, está indo para o ralo.

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