Reflexões Sobre a Greve dos Professores

CURITIBA (too much)  Faz três anos que sou professor do departamento de informática da UFPR. Vim de uma universidade privada, então para mim tudo isso é novidade. Nesse curto período já “peguei” duas greves, uma curtinha no ano passado e uma bem longa nesse ano (três meses até agora).  Além da greve dos professores, os funcionários também estão em parados, ou seja, o pessoal da secretaria da pós-graduação, da qual eu sou o atual coordenador, também está em greve. Mas a pós-graduação não pode parar. Os alunos de mestrado e doutorado continuam recebendo bolsas e por isso os mesmos continuam com suas pesquisas. Todo o trabalho de secretária sobra para o coordenador, no caso eu. Maldita hora para ser coordenador.

E essa greve faz sentido? Eu te pergunto. No banheiro do lugar que você trabalha tem papel higiênico? No local que você trabalha tem goteiras? Você fica anos sem receber reposição da inflação?

Pois bem, no departamento de informática tem um banheiro sem papel higiênico, sabão e toalha papel para cerca de 40 professores. Se você ficar apertado é bom ter o seu papel na sua sala. Também tem goteiras espalhadas por todo canto. Na minha sala volta e meia chove dentro.  Esses dias perdemos os no-breaks do departamento por causa da chuva, ou melhor, por causa das goteiras dentro da sala de servidores. Os alunos tem que caminhar até o bloco das engenharias para usar o banheiro.

No que diz respeito a reposição de inflação, isso não é automático no serviço publico. Diferentemente da iniciativa privada, em que os sindicatos todo ano conseguem pelo menos a reposição da inflação, no serviço público você só tem aumento se fizer greve (pelo menos essa é a minha experiência).

Essa greve não é apenas uma questão salarial, e sim uma luta para se conseguir melhores condições de trabalho. Ao meu ver a imprensa em geral ignora esse fato. O foco é somente na questão salarial. O governo ofereceu aumento e os professores recusaram! Em tempos de crise, onde já se viu. E por aí vai, o pessoal não quer dar aula, eu estudei em federal e os professores eram uma merda, os caras ganham muito pra quantidade de aulas que eles dão, o ensino superior é uma merda, basta ver o exame da ordem, etc…

Antes de falar sobre essas críticas, deixe-me dar dois exemplos O primeiro vem do meu curso, Ciência da Computação e o segundo do curso de Direito.

Exemplo 1) No caso da computação, existe uma competição anual chamada Maratona de Programação. É um evento no qual os alunos tem que resolver um determinado número de problema em um intervalo de tempo. Isso envolve diversas disciplinas que os alunos tem durante o curso. Invariavelmente, as equipes melhores colocadas são equipes de universidades federais. Veja aqui, por exemplo, o resultado da última maratona, de 2011. Encontrou alguma universidade particular?

Exemplo 2) No famigerado exame da OAB, que nesse ano de 2012 aprovou somente 15% dos candidatos, das TOP 20 universidades em aprovação no exame da ordem, 19 são instituições públicas. Várias com índice de aprovação na casa dos 70%.

Esses exemplos deixam claro, que apesar das deficiências de infra-estrutura e corpo docente, as universidades federais formam bons alunos. Tem professor ruim?  Tem. Tem professor  que dá uma merda de aula? Certamente tem. Mas a maioria faz um ótimo trabalho para formar bons alunos. E certamente poderíamos fazer muito mais, se tivéssemos melhores condições de trabalho.

Aí alguém vai dizer, mas o aluno que chega na federal é melhor do que o aluno que chega numa universidade privada. Em geral isso é verdade. Mas a dinâmica e a cultura da universidade pública cria um aluno mais independente, e no meu ponto de vista, um profissional melhor. Os dois exemplos acima mostram claramente isso. Eu posso dizer isso com alguma propriedade pois até 2009 trabalhei na PUCPR.

Em resumo, acho que a greve é valida e que foi longe demais. Temos um governo, que negocia com um sindicato que não representa ninguém (composto por amigos do PT), e o sindicato que representa a maioria não parece ter muita habilidade/capacidade para negociar com esse governo. Quem são os maiores prejudicados? A sociedade brasileira em geral que paga impostos.

Mas pelo jeito vou ter que me acostumar com isso. Quem mandou querer ser professor/pesquisador em universidade pública. Se tivesse, ao invés de fazer doutorado, feito concurso para policia ou receita federal, estaria ganhando bem mais e a greve seria bem mais curta (uma ou duas operações-padrão e tudo está resolvido).

 

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Greve

CURITIBA (decepção) Ontem participei de uma manifestação na boca maldita, no centro da cidade de Curitiba, em prol da greve dos professores das universidades federais. Das 59 instituições federais, me parece que 45 estão em greve.

Devo confessar que fiquei bastante decepcionado com a quantidade de professores que apareceram na boca maldita. Ainda mais quando vi na televisão as manifestações dos professores da UnB e da UFRJ. Não basta ser a universidade mais antiga do Brasil, tem que ter atitude. E isso não vale só para a greve. Vale pra tudo dentro da universidade, de extensão a pós-graduação.

Dentro da universidade encontro um monte de gente reclamando das condições de trabalho, das goteiras em cima dos computadores, dos banheiros de rodoviária, da falta de salas para os professores, da alta carga horária em sala de aula, etc.

Pois bem, essa greve, além da restruturação da carreira, também reivindica melhores condições de trabalho. E onde estavam aqueles professores que vivem reclamando pelos cantos? Na manifestação eles não estavam. Provavelmente dando aulas, mas não para não prejudicar os alunos, mas sim para não perderem suas férias no meio do ano. Esse tipo de gente não merece melhores condições de trabalho. Merecem sim uma goteira em cima da cabeça e 20h de sala de aula.